David Wojnarowicz: Ephemera & Film

coleção moraes-barbosa

curadoria de Krist Gruijthuijsen





David Wojnarowicz (1954–1992) surge como uma das vozes mais cativantes da cena artística do East Village na década de 1980. Em grande parte autodidata, transitou fluidamente entre disciplinas como escrita, cinema, performance e ativismo, criando um corpo de trabalho ferozmente político e ao mesmo tempo, profundamente pessoal. Combinando materiais encontrados e descartados com uma perspicácia literária incisiva, David forjou uma linguagem artística distinta que refletiu tanto a urgência de seu tempo quanto seu complexo mundo interior.

Inicialmente exibido em galerias alternativas do centro de Nova York (Downtown), seu trabalho logo ganhou atenção nacional. Diagnosticado com HIV no final de 1980, tornou-se também uma voz destemida na luta contra a crise da AIDS, alinhando-se a movimentos ativistas como a ACT UP (AIDS Coalition to Unleash Power) e o coletivo de artistas Gran Fury. Até sua morte em 1992, produz trabalhos que permanecem conceitualmente rigorosos e estilisticamente diversos.

Ephemera & Film (Efêmera & Filmes) marca a primeira exposição de David Wojnarowicz no Brasil. Exibindo filmes e materiais de arquivo coletados ao longo da última década pela coleção moraes-barbosa, incluindo fotografias, provas de impressão, cartões de convite, publicações, serigrafias e filmes em 16mm e Super 8. Juntos, esses materiais traçam sua prática artística enraizada nas interseções da história pessoal, da resistência política e da crítica cultural.

Nascido em Nova Jersey em 1954, o artista não teve uma educação artística formal após se formar na High School of Music and Art de Manhattan. Seu círculo de amigos e colaboradores, como Nan Goldin, Kiki Smith, Peter Hujar, Ben Neill, entre outros, incentivou o espírito de experimentação que definiu sua abordagem aberta e híbrida. Seu trabalho continuamente entrelaça linhas culturais, estéticas e políticas.

A fotografia formou um pilar central de sua prática. Sua série de destaque, “Arthur Rimbaud in New York” 1978–1979, fotografada com uma câmera 35mm, apresenta seus amigos usando uma máscara do poeta francês do século XIX enquanto posam em locais urbanos por Manhattan e Brooklyn. A série colapsa o tempo histórico e o contemporâneo, fundindo a persona mítica de Rimbaud com as realidades cruas da subcultura queer de Nova York. Muitos desses espaços urbanos — Times Square, e o cais do Rio Hudson — foram extraídos da sua própria vida, desde sua juventude como garoto de programa na rua, até sua perambulação entre as ruínas industriais da cidade. Através dessas justaposições, David Wojnarowicz criou uma poética do tempo, da identidade e da sobrevivência.

A morte de seu amigo, mentor e ex-amante, o fotógrafo Peter Hujar, devido a complicações relacionadas à AIDS em 1987, marcou um ponto de virada na obra de David Wojnarowicz. Seu vídeo “Fragments for a Film About Peter Hujar” 1987–1988, é uma elegia comovente e incompleta a Peter Hujar. Confrontando seu próprio diagnóstico logo depois, sua prática assume uma urgência abertamente política, ao entrar em debates públicos sobre pesquisa médica, censura e direitos de artistas vivendo com HIV/AIDS.

Ao longo de sua prática, alguns símbolos e metáforas tornam-se recorrentes, como mapas, elementos naturais, paisagens industriais, assim como a iconografia religiosa e mitológica, que refletem sua profunda preocupação com a humanidade, os animais e o mundo natural. O vídeo de quatro canais “ITSOFOMO (In the Shadow of Forward Motion)” 1989, com a imagem de uma cobra se aproximando de um camundongo, evoca uma luta universal pela sobrevivência. De forma semelhante, “A Fire in My Belly” medita sobre identidade cultural e espiritual. Filmado na Cidade do México em 25 rolos de Super 8, o trabalho capta fragmentos da vida social, incluindo a imagem assombrosa de uma criança se apresentando como cospe-fogo — um eco de seu próprio passado. Mais tarde, o artista intercalou essas filmagens com sequências encenadas em seu apartamento em Nova York: moedas caindo em um prato de sangue, uma marionete dançando com uma arma, e o já icônico auto-retrato com os lábios costurados. Embora nunca concluído, “A Fire in My Belly" permanece como uma de suas obras mais viscerais e emblemáticas.

Ephemera & Film reflete sobre David Wojnarowicz como artista e ativista durante um período de profunda convulsão política e pessoal. A exposição destaca uma prática que continua a ecoar — e oferece inspiração às gerações seguintes enquanto renova sua relevância em uma cidade como São Paulo, onde questões de visibilidade, identidade e resistência permanecem profundamente urgentes.

Krist Gruijthuijsen, curador



EN

David Wojnarowicz (1954–1992) emerged as one of the most compelling voices of the 1980s East Village art scene. Largely self-taught, he worked fluidly across disciplines such as writing, film, performance, and activism, creating a body of work that was at once fiercely political and profoundly personal. Combining found and discarded materials with an incisive literary sensibility, Wojnarowicz forged a distinctive artistic language that reflected both the urgency of his time and his own complex world.


Initially exhibited in the raw storefront galleries of downtown New York, his work soon gained national attention. Diagnosed with HIV in the late 1980s, Wojnarowicz became an unflinching voice in the fight against the AIDS crisis, aligning himself with activist movements such as ACT UP (AIDS Coalition to Unleash Power) and the artist collective Gran Fury. Until his death in 1992, he produced a body of work that remains as conceptually rigorous as it is stylistically diverse.


Ephemera & Film marks the first exhibition of David Wojnarowicz in Brazil. It focuses on films and archival materials collected over the past decade as part of the Moraes-Barbosa Collection, including photographs, test prints, invitation cards, publications, silkscreens, and 16mm and Super 8 films. Together, these materials trace an artistic practice rooted in the intersections of personal history, political resistance, and cultural critique.


Born in New Jersey in 1954, Wojnarowicz received no formal art education after graduating from Manhattan’s High School of Music and Art. His circle of friends and collaborators such as Nan Goldin, Kiki Smith, Peter Hujar, Ben Neill, among others, encouraged a spirit of experimentation that defined his open, hybrid approach. His work continually wove together cultural, aesthetic, and political threads.


Photography formed a central pillar of his practice. His breakthrough series “Arthur Rimbaud in New York” 1978–1979, shot with a 35mm camera, features friends wearing a mask of the nineteenth-century French poet as they pose in urban locations across Manhattan and Brooklyn. The series collapses historical and contemporary time, merging Rimbaud’s mythic persona with the gritty realities of New York’s queer subcultures. Many of these urban spaces—Times Square, the Hudson River piers—were drawn from Wojnarowicz’s own life, from his youth as a street hustler to his later wanderings among the city’s industrial ruins. Through such juxtapositions, he created a poetics of time, identity, and survival.


The death of his friend, mentor, and former lover, photographer Peter Hujar, from AIDS-related complications in 1987 marked a turning point in Wojnarowicz’s work. His video “Fragments for a Film About Peter Hujar” 1987–1988, stands as a poignant and incomplete elegy to Hujar. Confronting his own diagnosis soon after, Wojnarowicz’s art took on an overtly political urgency, as he entered public debates on medical research, censorship, and the rights of artists living with HIV/AIDS.


Throughout his practice, recurring symbols and metaphors such as maps, elements, industrial landscapes, religious and mythological imagery reflect his deep concern for humanity, animals, and the natural world. The four-channel video “ITSOFOMO (In the Shadow of Forward Motion)” 1989, with its image of a snake approaching a mouse, evokes a universal struggle for survival. Similarly, “A Fire in My Belly” 1986–1987, meditates on cultural and spiritual identity. Filmed in Mexico City on 25 rolls of Super 8, the work captures fragments of social life, including the haunting image of a child performing as a fire-breather—an echo of Wojnarowicz’s own past. The artist later intercut this footage with staged sequences filmed in his New York apartment: coins dropping into a plate of blood, a dancing marionette with a gun, and the now-iconic self-portrait with his lips sewn shut. Though never completed, “A Fire in My Belly” remains one of his most visceral and emblematic works.


Ephemera & Film reflects on Wojnarowicz as both artist and activist during a time of profound political and personal upheaval. The exhibition highlights a practice that continues to resonate—offering inspiration to subsequent generations and renewed relevance in cities like São Paulo, where questions of visibility, identity, and resistance remain deeply urgent.


Krist Gruijthuijsen, curator

Texto complementar:
Cartões Postais da América: Raios-X do Inferno

Disponível de:
24/01 - 21/03/2026
Segunda a Sexta,
das 11h às 19h
Sábado das 13h às 19h
Entrada gratuita

como chegar

Travessa Dona Paula, 120 Higienópolis - São Paulo