Fi-Sci
The Fiction Of Science FictionOrg. Pontogor e Joaquim pedro

Arte e ciência são a mesma coisa.
Jimmie Durham (Barbara Wien Gallery, 2025)
“Horizonte de eventos” designa a fronteira teórica ao redor de um buraco negro, para além da qual nada, nem mesmo a luz, pode escapar. Conhecido como o “ponto de não retorno”, nele a velocidade de escape alcança a velocidade da luz; além dele, supera-a, aprisionando matéria e informação.
Assistente IA (em resposta à pergunta sobre o significado de “horizonte de eventos”)
Certa vez, tive a feliz oportunidade de apresentar o DMT a um importante lama tibetano. [...] Ele o experimentou, e eu lhe perguntei: “Então, o que achou?” [...] Ele respondeu: “São as luzes menores [que despontam no início do bardo]. Não se pode ir além disso sem romper o fio do retorno. Uma vez ultrapassado, não há volta”.
Terence McKenna,
(DMT, Mathematical Dimensions, Syntax and Death, 1983)
Sutor, ne ultra crepidam [Sapateiro, não julgues além das sandálias]
Provérbio latino (derivado de máxima atribuída a Apeles por Plínio, o Velho, em História Natural, c. 77d.C)
The Fiction of Science Fiction
"11 de dezembro de 17XX
Você gostará de saber que nenhum desastre ocorreu no início do empreendimento que você encarou com presságios tão sombrios.”
Em 1956, um projeto inimaginável começou a erguer uma cidade fictícia, futurista e utópica no Planalto Central de uma das maiores nações do mundo, em um experimento científico e social sem precedentes. Nela, o futuro se antecipou, exacerbando o que o passado já mostrava havia muito tempo. (Desde sempre?). A população da região foi dividida por um único corte, seco e preciso, como se desferido pela espada desembainhada de Alexandre Magno. De um lado, ficaram todos aqueles que, por migalhas, suaram e morreram para que os edifícios brotassem do solo árido como flores no deserto, para, em seguida, serem banidos para os satélites que orbitam essa cidade-modelo. Do outro, ficaram aqueles que convergiram de todos os pontos do planeta em seus veículos abençoados pela modernidade. O projeto falhou, mas segue em curso, à deriva, no sonho dos que apenas fingem dormir.
Alguns anos depois do “nascimento” supracitado, um pouco mais ao sul, sob o Sol de Maio, o ensino de um “simples” diagrama seria proibido nas escolas primárias, provavelmente por tornar apreensível o conceito de cooperação.
Em assembleias que envolvem votações ou aprovações múltiplas (Proposta A e Proposta B), aplica-se a fórmula do princípio da inclusão-exclusão para evitar que os mesmos votos sejam contabilizados duas vezes:
N(Total) = N(A) + N(B) - N(A ∩ B) + N(Abstenções)
Mas, para tiranos, certas coisas não deveriam sequer ser pensadas.
Ficção e realidade aproximam-se ou se afastam conforme o ponto de vista, o contexto e o pacto travado entre os membros de uma comunidade (∩) — ou, mais frequentemente, conforme as regras impostas pelos poucos que dominam as massas (⊕).
Desde que o excerto de abertura (“11 de dezembro de 17XX…”) foi publicado anonimamente por Mary Shelley em 1º de janeiro de 1818, cientistas começaram a imaginar e elaborar mundos até então inconcebíveis: máquinas elétricas, calculadoras, rádios, bombas. Artistas passaram a povoar o imaginário coletivo com viagens interplanetárias, seres extraterrestres, comunicação telepática, autômatos, bombas. Todos os demais liam sobre esse incontornável mundo novo e faziam uso de seus dispositivos e recursos: celulares, assistentes virtuais, videochamadas.
As bombas não cessavam de ser lançadas sobre suas cabeças.
O espaço de interseção entre esses dois mundos (ciência ∩ arte), frequentemente chamado de sci-fi, alimenta-se de ambos e a ambos alimenta. Artistas bebem da tecnologia e sonham com ovelhas elétricas; cientistas vislumbram futuros “impossíveis”, antes imaginados por artistas, e são tomados pelo desejo de torná-los reais. Ou mais que reais. Trilhonários tecnocratas não sonham, mas, por meio de cabos e circuitos invisíveis, nutrem-se de corpos e mentes, a tudo manipulam, e arrogam-se o poder de definir o que é — ou não é — ficção.
(Preciso falar das bombas?)
A exposição The Fiction of Science Fiction [A ficção da ficção científica], realizada pela coleção moraes-barbosa, com pesquisa e organização de Joaquim Pedro e Pontogor, constrói uma narrativa ficcional composta de obras de arte, documentos e desvios. Nem tudo o que integra a mostra foi concebido como ficção científica. No entanto, dispostas lado a lado — em diálogo ou espelhamento — e articuladas pelo título que as enlaça, as peças aqui reunidas podem ser percebidas como fragmentos de uma mesma ficção ou, ainda, como uma espécie de curto-circuito.
Em uma realidade atravessada por cães-robôs, turismo espacial, tecnologias de lavagem cerebral e céus bombardeados por drones, o futuro outrora sonhado — e agora vivido — mais parece um pesadelo iReal.
“Acorde, Alice querida!” disse a irmã. “Nossa, que sono pesado você teve!”
❏ Confirme que é humano
Jimmie Durham (Barbara Wien Gallery, 2025)
“Horizonte de eventos” designa a fronteira teórica ao redor de um buraco negro, para além da qual nada, nem mesmo a luz, pode escapar. Conhecido como o “ponto de não retorno”, nele a velocidade de escape alcança a velocidade da luz; além dele, supera-a, aprisionando matéria e informação.
Assistente IA (em resposta à pergunta sobre o significado de “horizonte de eventos”)
Certa vez, tive a feliz oportunidade de apresentar o DMT a um importante lama tibetano. [...] Ele o experimentou, e eu lhe perguntei: “Então, o que achou?” [...] Ele respondeu: “São as luzes menores [que despontam no início do bardo]. Não se pode ir além disso sem romper o fio do retorno. Uma vez ultrapassado, não há volta”.
Terence McKenna,
(DMT, Mathematical Dimensions, Syntax and Death, 1983)
Sutor, ne ultra crepidam [Sapateiro, não julgues além das sandálias]
Provérbio latino (derivado de máxima atribuída a Apeles por Plínio, o Velho, em História Natural, c. 77d.C)
The Fiction of Science Fiction
"11 de dezembro de 17XX
Você gostará de saber que nenhum desastre ocorreu no início do empreendimento que você encarou com presságios tão sombrios.”
Em 1956, um projeto inimaginável começou a erguer uma cidade fictícia, futurista e utópica no Planalto Central de uma das maiores nações do mundo, em um experimento científico e social sem precedentes. Nela, o futuro se antecipou, exacerbando o que o passado já mostrava havia muito tempo. (Desde sempre?). A população da região foi dividida por um único corte, seco e preciso, como se desferido pela espada desembainhada de Alexandre Magno. De um lado, ficaram todos aqueles que, por migalhas, suaram e morreram para que os edifícios brotassem do solo árido como flores no deserto, para, em seguida, serem banidos para os satélites que orbitam essa cidade-modelo. Do outro, ficaram aqueles que convergiram de todos os pontos do planeta em seus veículos abençoados pela modernidade. O projeto falhou, mas segue em curso, à deriva, no sonho dos que apenas fingem dormir.
Alguns anos depois do “nascimento” supracitado, um pouco mais ao sul, sob o Sol de Maio, o ensino de um “simples” diagrama seria proibido nas escolas primárias, provavelmente por tornar apreensível o conceito de cooperação.
Em assembleias que envolvem votações ou aprovações múltiplas (Proposta A e Proposta B), aplica-se a fórmula do princípio da inclusão-exclusão para evitar que os mesmos votos sejam contabilizados duas vezes:
N(Total) = N(A) + N(B) - N(A ∩ B) + N(Abstenções)
Mas, para tiranos, certas coisas não deveriam sequer ser pensadas.
Ficção e realidade aproximam-se ou se afastam conforme o ponto de vista, o contexto e o pacto travado entre os membros de uma comunidade (∩) — ou, mais frequentemente, conforme as regras impostas pelos poucos que dominam as massas (⊕).
Desde que o excerto de abertura (“11 de dezembro de 17XX…”) foi publicado anonimamente por Mary Shelley em 1º de janeiro de 1818, cientistas começaram a imaginar e elaborar mundos até então inconcebíveis: máquinas elétricas, calculadoras, rádios, bombas. Artistas passaram a povoar o imaginário coletivo com viagens interplanetárias, seres extraterrestres, comunicação telepática, autômatos, bombas. Todos os demais liam sobre esse incontornável mundo novo e faziam uso de seus dispositivos e recursos: celulares, assistentes virtuais, videochamadas.
As bombas não cessavam de ser lançadas sobre suas cabeças.
O espaço de interseção entre esses dois mundos (ciência ∩ arte), frequentemente chamado de sci-fi, alimenta-se de ambos e a ambos alimenta. Artistas bebem da tecnologia e sonham com ovelhas elétricas; cientistas vislumbram futuros “impossíveis”, antes imaginados por artistas, e são tomados pelo desejo de torná-los reais. Ou mais que reais. Trilhonários tecnocratas não sonham, mas, por meio de cabos e circuitos invisíveis, nutrem-se de corpos e mentes, a tudo manipulam, e arrogam-se o poder de definir o que é — ou não é — ficção.
(Preciso falar das bombas?)
A exposição The Fiction of Science Fiction [A ficção da ficção científica], realizada pela coleção moraes-barbosa, com pesquisa e organização de Joaquim Pedro e Pontogor, constrói uma narrativa ficcional composta de obras de arte, documentos e desvios. Nem tudo o que integra a mostra foi concebido como ficção científica. No entanto, dispostas lado a lado — em diálogo ou espelhamento — e articuladas pelo título que as enlaça, as peças aqui reunidas podem ser percebidas como fragmentos de uma mesma ficção ou, ainda, como uma espécie de curto-circuito.
Em uma realidade atravessada por cães-robôs, turismo espacial, tecnologias de lavagem cerebral e céus bombardeados por drones, o futuro outrora sonhado — e agora vivido — mais parece um pesadelo iReal.
“Acorde, Alice querida!” disse a irmã. “Nossa, que sono pesado você teve!”
❏ Confirme que é humano
Pontogor, 2026
Lawrence Abu Hamdan
Disponível de:
30/08 - 30/12 2026
seg. à sex.
13h às 19hpm
sábados
11h às 19h
entrada gratuita
como chegar
Travessa Dona Paula, 120 Higienópolis - São Paulo
Disponível de:
30/08 - 30/12 2026
seg. à sex.
13h às 19hpm
sábados
11h às 19h
entrada gratuita
como chegar
Travessa Dona Paula, 120 Higienópolis - São Paulo