O reflexo da faca


Caio Bonifácio  
Renata Masini Hein



Em português e em inglês, “penetração” tem um sentido sexual.

A faca penetra a carne, ou o falo.





1. a imagem

Fear/ No penetration é uma composição fotográfica realizada em 1973, um período em que Iole de Freitas trabalhou majoritariamente com fotografia e vídeos em Super 8.

Nessa época, a artista já tinha uma experiência de mais de dezoito anos com dança contemporânea. Nesse e em outros trabalhos do início da década de 1970, o corpo está presente, mediado pela câmera e por um espelho.

Fear/ No penetration é uma montagem de duas fotografias preto-e-brancas lado a lado. Nelas se vê a artista e uma faca colocada rente a um espelho, o que faz com que seu reflexo passe quase despercebido. Sabe-se do reflexo porque sabe-se que espelhos refletem. Também pela suave duplicação do cabo.
 





A primeira imagem, à esquerda, associada ao termo Fear ("Medo"), apresenta um corpo sem reflexo em gesto de recusa ou afastamento - dirigido à própria imagem no espelho ou a um terceiro elemento fora do enquadramento. A segunda fotografia, à direita, associada à frase No penetration (“Sem penetração”), sugere um enfrentamento: a faca fica entre a artista e seu próprio reflexo no espelho, enquanto ela se encara, olho no olho, com expressão de coragem.


"É preciso estar atento e forte
Não temos tempo de temer a morte"1



Trecho da letra da canção "Divino Maravilhoso" (Caetano Veloso/Gilberto Gil), interpretada por Gal Costa no disco "Gal Costa", de 1969.
Iole é parte de uma leva de artistas que deixa o país na década de 1970 e conquista as graças de um público internacional que tem seus olhos voltados aos artistas brasileiros.2 Em 1973, quando concebeu a composição Fear/ No penetration, a artista morava em Milão, onde trabalhava como designer.

Sua obra é interpelada por essa vaga internacionalista da produção brasilera e podemos considerar que isso atravessa o trabalho aqui discutido em pelo menos três pontos: i) no texto em inglês sob cada uma das fotografias, cuja escolha como língua franca testemunha a construção de uma hegemonia cultural anglófona em curso; ii) em sua circulação pelo norte global durante a década de 1970, com diversas exposições na Europa Ocidental, nos Estados Unidos e no Canadá; iii) na sua recepção pela crítica internacional, principalmente sua inclusão na crítica de arte feminista que começava a se desenvolver na década de 1970.


Ao menos desde a divulgação pelo crítico inglês Guy Brett da inventividade tropical – traço distintivo da arte brasileira – presente na apropriação das correntes construtivas pelos artistas neoconcretos.


3. a fotografia e o corpo

O rosto de Iole apenas na segunda fotografia, o gesto de afastamento com as mãos sendo dirigido a um outro não visto, fora do campo da representação: um outro que foge a suas estratégias, enquanto furo, enquanto trauma.
Em Fear/ No penetration, um gesto de recusa é projetado sobre a superfície do espelho: o pulso esticado que mantém a mão inclinada para trás, com os dedos levemente dobrados. Um movimento que aparece apenas mediado por outra superfície, na qual pode-se ver o próprio corpo refletido.








O gesto é a necessidade de expressão corporal, de preencher o ato de afeto – é estético. A familiaridade com um movimento específico abre espaço para a gestualidade, que expressa uma dimensão desconhecida de si. É o inconsciente do movimento, que exige subir à superfície – o recorte do corpo pela fotografia é também análise dos recônditos da psique.



A produção de Bruce Nauman, por exemplo, um contemporâneo de Iole, é atravessada pela submissão do corpo a condições de restrição de movimento, nas quais uma gestualidade afetada é forçada ou se esforça em aparecer. Andar em um corredor apertado, em contraposto, como uma escultura grega em repouso. Ou andar sobre uma marcação no chão, um quadrado, estéril. O corpo se manifesta mesmo em ambiente árido.

Na coreografia de Accumulation (1971), Trisha Brown isola alguns movimentos pequenos, de partes do corpo isoladas – como algo fabril, maquínico. Ela repete esses movimentos e adiciona outros, formando sequências pela acumulação. Nada mais que isso, acumulação de passos simples. Nos intervalos, na repetição, o corpo desempenha com estilo, com gesto.

Nos anos 1970, Lucy Lippard produziu um catálogo da obra de Iole.3 No texto de apresentação, Lippard indica que o procedimento da artista em relação ao corpo é de uma análise minuciosa, de fragmentação para investigação, visando uma posterior reconstrução, “de forma macrocósmica, como arte”.

O espelho e a fotografia permitem ver o corpo projetado em uma superfície externa, para investigação e produção de conhecimento – o que possibilita, ao mesmo tempo, o cuidado e a dominação. O corpo aparece como imagem virtual, (como duplo: há a Iole fotografada e há seu reflexo no espelho fotografado), projetado e mediado.

 O texto de apresentação do dito catálogo pode ser acessado em: http://www.iacbrasil.org.br/acervoiac/static/iac/uploads/acervo/arquivos/29234.pdf

Quantas vezes encenar o gesto de recusa até ver o que está ali? Várias.


Sobre sua prática fotográfica, Iole escreveu:

Usar a fotografia como um meio de expressão me interessa tanto quanto me permite registrar o clima de meu estado mental. Meu corpo foi fotografado por mim mesma; se outra pessoa operasse a câmera, a imagem resultante não seria aquela na qual eu sozinha posso intervir a qualquer momento. [...] quero dizer registrar mais que documentar, através de uma imagem planejada, certos momentos que são parte de uma pesquisa intimista, para chegar a um melhor conhecimento de mim mesma. [...] as imagens resultantes são apoiadas por uma organização racional que refere ela mesma a uma dialética da linguagem como aparece a partir da oposição de imagens e palavras.4

O uso analítico da imagem fotográfica é relacionado ao modelo epistemológico da câmara escura, geralmente considerado como um estágio primitivo na genealogia da fotografia: a câmera escura produz um quadro isolado, projetado no interior de um quarto escuro, a partir do mundo extenso.5

Esse ambiente escuro é o modelo ideal, onde o corpo do observador não está sob as condições do mundo real de onde o quadro é retirado – a relação entre sujeito e objeto se dá no laboratório.

4 Originalmente escrito em italiano, o texto escrito por Iole é uma apresentação do trabalho “Introvert/ penetrate; extrovert/penetrate; fear/do not penetrate” seis sequências fotográficas de 1973, e pode ser acessado em: http://www.iacbrasil.org.br/acervoiac/static/iac/uploads/acervo/arquivos/29159.pdf

5 A ideia de mundo extenso segue a formulação da res extensa, no pensamento cartesiano. É a noção de um mundo ininterrupto, sob o qual não age a fragmentação racional. Sobre essa e outras  transformações no pensamento sobre a visão, ver CRARY, J. Técnicas do observador. São Paulo: Contraponto, 2012.



A câmera fotográfica, além disso, ainda permite captar o mundo estático em uma grade geométrica prevista – o aparelho produz uma série de deformações na imagem captada, com cálculos para a transformação do complexo multidimensional do mundo em imagem bidimensional.




Lippard escreveu: “Através da fragmentação, vendo-se a si mesma pedaço por pedaço, ela consegue recriar-se, bem como evocar movimento, valendo-se de um meio estático sobre o qual tem total controle.”

Consciente da opacidade da linguagem que investiga, a artista pode considerar as distorções provocadas pela lente em sua análise minuciosa e crítica do próprio corpo.


4. a faca penetra a carne

FALO = D.: P hallus. — F.: phallus. — En.: phallus. — Es.: falo. — /.: fallo.
Na Antiguidade greco-latina, representação figurada do órgão sexual masculino. 
Em psicanálise, o uso deste termo sublinha a função simbólica desempenhada pelo pênis na dialética intra e intersubjetiva, enquanto o termo “pênis” é sobretudo reservado para designar o órgão na sua realidade anatômica.6

A faca, o falo.

Uma faca que aparece suspensa e fixada horizontalmente sobre a superfície do espelho.

Também há facas em outros trabalhos de Iole da mesma década: cortando um tecido, empunhadas pela artista; diante de vários cacos de espelho quebrado que refletem seu rosto, a faca aparece como força destruidora da superfície onde o corpo é projetado: representa uma ameaça à identidade ou à mediação do reflexo?



6 LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J. B. Vocabulário de Psicanálise. São Paulo: Martins fontes, 2008, p. 166 - 167.


Seguindo a leitura de Lippard, nesses casos a faca seria simbolicamente uma libertação da imagem socialmente imposta para a mulher, de uma “feminilidade escravizante”. “A faca é portanto um símbolo de liberdade”.

Nessa investigação do corpo, Iole registra primeiro uma recusa enfática, a mão estendida, em medo. Se na primeira imagem a faca aparece suspensa, oferecida ao outro não representado e recusada pela artista, na segunda seus olhos encaram a faca, contemplando a possibilidade de uma investida violenta: o corte de seu reflexo ou de seu adversário.