Programa de Textos


O programa de textos da cmb é uma iniciativa que oferece o material da coleção para que autoras, autores e artistas desenrolem fios críticos, analíticos, propositivos e/ou poéticos partindo de momentos-chave na produção artística moderna e contemporânea.



De vidro. Por que não recua ou morre?


Laila Terra




É preciso entender mais do que o conjunto elementar que compõe a Farnsworth House como signo estético. É preciso entrar no contexto histórico da linguagem que abrange esse signo específico, porque toda linguagem está consignada a um determinado tempo e espaço. É necessário identificar as falas aplicadas à casa e aos personagens que dela se ocuparam nas distintas conjunturas. Quem era Mies van der Rohe, quando foi contratado por Edith, e quais eram os enunciados relativos a ele? Quem era Edith Farnsworth, a contratante, e como ela foi representada pela história (de 1940 a 2020)? Em que época a casa foi projetada e onde? Quais os elementos construtivos propostos por Mies? Qual foi a reação de Edith depois da casa pronta e o que isso acarretou? E, por fim, o que ocorreu com a casa ao longo tempo (de 1951 até 2020)? Finalmente, com esses dados, podemos confrontar os discursos.



O fogo entre o passado e o futuro


Nathalia Colli




Quinhentas e quarenta e nove mil pessoas mortas pelo coronavírus no Brasil, a cotação do dólar não pára de subir, já se somam milhões de desempregados e milhões de desabrigados. Manchete central “Estátua de Borba Gato é incendiada na zona sul de São Paulo, dois foram presos”. Isto é um print screen de uma tela de jornal do dia 24 de julho de 2021. Ninguém saiu ferido. Exceto os dois presos. Os pretos.



“Evita a parte norte-americana porque só tem televisão, ouviu?”


Cássia Hosni




A entrada das imagens em movimento nas exposições da Bienal de São Paulo, no início da década de 1970, pode ser vista como um território de conflito técnico, estético e geopolítico. Tais conflitos puderam se proliferar devido ao próprio modelo adotado pelo evento (e abandonado apenas em sua 27ª edição, em 2006), baseado nas representações nacionais, onde os países convidados custeiam o envio das obras e dos equipamentos – e têm, portanto, a palavra final sobre o que irão exibir. Não à toa, esse regime atribuía a maior importância ao aspecto financeiro, possibilitando que as grandes potências econômicas tivessem maior destaque. 





O reflexo da faca


Caio Bonifácio e Renata Masini Hein




O gesto de recusa e a expressão no rosto de Iole, ao encarar a si mesma no reflexo do espelho, demonstram um eloquente enfrentamento com seu próprio corpo - um corpo fechado, como se impusesse, a uma repressão. A dureza de uma couraça da recusa enfática, de um corpo que enfrenta ao mesmo tempo em que afasta. A faca é ambiguamente um símbolo de violência: é apenas um instrumento, o qual, dependendo de quem empunha, é capaz de reprimir ou de libertar.





Criação e cuidado na mistura entre corpos vibráteis/materiais


jialu pombo



O entrelaçamento entre vida e morte do qual Lygia fala é o que tenho chamado pela expressão vulnerabilidade-força: há uma força presente em um embrião que carrega informação potencial de vida, e para que tal vida venha a existir, aquilo que a carrega precisa abrir mão de sua forma, atingir o ápice de sua vulnerabilidade, e se misturar para germinar outra coisa. Nessa passagem que se encontra o ato de criação, ela segue acontecendo de novo e de novo, sempre diferente.